quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Tem coisas que são realmente estranhas, estava revisitando meus blogs antigos e encontrei um texto que não fazia a menor ideia de ter um dia escrito. Segue ai:
Quando a Terra parou para pensar...
A Terra é uma senhora que chegou na menopausa, ondas de calor constante assolam seu corpo já cansado. Ainda terá uma velhice tranquila, terá bons anos de vida felizes, mas com a constante entropia destruindo seu interior e exterior. No exato momento caminha até a praia para se lembrar de seus anos de vida. Senta-se a beira mar e com os olhos fixos no horizonte recorda de quando era uma criança sem entender muito o que estava acontecendo contigo. Apenas sentia as transformações ocorrendo, suas células se multiplicarem e se complexificarem. Ainda não tinha consciência, sobretudo, da morte. Não entendia que aquelas transformações dariam para si o maior prazer de pensar sobre si mesma. De entender suas paixões, angústias, prazeres, fazeres. Lembrou-se da adolescência conturbada, questionando seu pai sol porque era tão bravo e caloroso contigo. Foi nesta mesma época que se apaixonou pelo grandioso Júpiter, moreno de cabelos longos, imponente e atraente com seus satélites naturais. Alguns planetas diziam que a paixão aconteceu devido aos satélites de Júpiter, poucos possuiam satélites tão atraentes. No entanto, sua irmã Vênus ficou com ciúmes e inventou boatos que a terra tinha uma doença terrível chamada húmanus. A terra ficou enfurecida com essa história, tentou explicar para Júpiter que era apenas um vírus inofencivo, que não precisava ter medo que ele não teria condições de sobreviver em seu corpo quente. Mas foi inútil, seu amado já estava apaixonado pelos encantos de Vênus. Seu amigo Marte não concebeu a idéia e quis guerriar com Júpiter. Loucura, pensou a Terra, tão pequeno e querendo enfrentar Júpiter. Mas sua coragem chamou a atenção de nossa senhora, e Marte quase foi infectado pelo vírus húmanus. Até hoje a Terra pensa que teve alguma infecção e sempre pergunta a Marte se tem vestígios dessa época. Toda essa história mudou bastante os sentimentos da Terra, sentiu pela primeira vez que o mundo era cruel, pensou em se matar, mas resistiu e seguiu sem entender muito os rumos do destino da vida. As incertezas sempre a acompanhou, sempre recitou poemas em seus mares turbulentos e agora sente com ardor a única certeza da existência: a morte.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Um conto em prosa

Para eu escrever um conto, uma poesia, ou até mesmo um livro (pasmem eu já escrevi um livro), sempre inicio com uma ideia, não qualquer ideia, mas uma que seja original, única, singular e ao mesmo tempo universal. Única e singular para manifestar o íntimo da minha existência e universal para que todos os possíveis leitores sintam-se contemplados e ao mesmo tempo indignados com tamanha intimidade exposta. Essa ideia tem que tomar conta por completo dos meus pensamentos, tem que ser impossível existir sem colocá-la em palavras, tem que ser algo completamente viciante. Algo que você irá e deverá conectar com tudo aquilo que você faça, sobretudo, no cotidiano. Até pensei em dizer que essa ideia deva ser potencialmente ampla, no entanto, todas as ideias são potencialmente amplas, cabe a nós alargar seus limites com disciplina e concentração. Portanto, a ideia inicial é necessariamente um diamante bruto que deve ser lapidado com os pequenos gestos do dia-a-dia. Embora toda ideia fique ampla com esforço e trabalho, via de regra, elas não surgem da mesma maneira. Pra mim, elas surgem ao acaso, exclusivamente de um sentimento, acidentalmente em uma viajem de ônibus, por exemplo. E hoje, foi exatamente quando estava no ônibus que me ocorreu uma ideia. Não para um livro e nem uma poesia, talvez para um conto, ou uma crônica. O fato é que viajo durante 40 minutos de casa para chegar até meu trabalho e para aproveitar o tempo comecei a ler O livro do riso e do esquecimento de Kundera. Estimulado pela leitura comecei a analisar o gosto por viajar e foi quando ela surgiu, ali, no lugar mais comum da consciência coletiva, o assunto mais popular que existe: o sexo! Não é algo erótico, mas que envolve a sexualidade em sua forma primitiva, especificamente posso afirmar que me senti um espermatozóide dentro de um pênis, que no caso seria o ônibus. Digamos que é uma metáfora bem fálica, mas que não posso levá-la as últimas consequências, ficaria muito arbitrário. Por exemplo, quando estava relatando tal metafora a uma amigo ele me questionou o que seria os preservativos. Simplesmente algo difícil de responder, talvez os motoristas que decidem abrir ou não as portas, mas seria um preservativo ineficiente, pois a todo momento ele permitiria a concepção. Também teriamos que pensar o que seria a vulva, em Curitiba não é difícil, pois os pontos são tubos que facilmente provoca a imaginação. Também poderia imaginar a cidade como a grande mãe que a todos acolhe. Enfim, é uma ideia pouco produtiva que apenas gostaria de registrar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Primeiras impressões, ou emoções?

Com os vinhos da solidão

A água jorra entre os prédios

As flores secam em pleno verão

Mas o viver não deixa tédio

Seria mais fácil viver solitário

Seria mais tenso olhar os canteiros

Seria mais denso acovardar-se

Seria, mas não é.

Nos pés a dor de um táxi perdido,

Dor que sublima as lágrimas engolidas

Mas que vivida se torna festejada

E por mais amada se torna marido.

Seria mais claro desistir

Seria mais vivo morrer

Seria mais fútil perquirir

Seria, mais não é.

De um vão surge a magia

De borboletas música

E o infinito se recria

Entre as lágrimas pintura.

Seria mais difícil escolher

Seria mais carinhoso seguir

Seria mais amoroso escorregar

Seria, mas não é.

Entre casas e apartamentos o céu

Entre facas e pensamentos o inferno

Entre, a casa não é sua,

Mas deixa eu morar, só pra lembrar.

Seria mais intenso viver

Seria mais rico talvez

Seria mais absurdo esquecer

Seria, mas não é.

As energias fluem e marcam

Seus territórios se escondem

Suas oratórias se inflamam

Seus olhares aqui me trazem.

E assim continuo a escolher

Para que a vida continue

Apenas continue

Afinal, seria, mas não sou!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bolsa família e a esmola

Depois de um pequeno debate sobre o bolsa família com uma colega de trabalho, refleti sobre a frequente comparação do bolsa família com esmola e gostaria de fazer algumas considerações importantes:

Quem dá esmola não faz nenhum tipo de análise socioeconômica da pessoa, no bolsa família existe um cadastro avaliando toda a situação socioeconômica e familiar da pessoa. De fato, existem casos que as pessoas dão declarações falsas, mas frequentemente são identificadas com o passar do tempo e isso são exceções que só confirmam a regra.

Quem dá esmola não exige nenhum tipo de condicionalidade, no bolsa família existem as condições de manter os filhos matriculados e frequentando a escola (mesmo com todos os problemas na escola ainda é melhor do que a rua), estar em dia com as vacinações dos filhos e participar de trabalhos socioeducativos e de profissionalização na assistência social.

Quem dá esmola o valor é irrisório, o bolsa família pode chegar até R$ 200,00 e que é um afronto a quem crítica o próprio programa, pois normalmente criticam o valor baixo, caracterizando-o como esmola e não como programa de transferência de renda, imaginem se o programa fosse realmente de transferência de renda?

Quem dá esmola é esporádico e espontâneo, o bolsa família é permanente e garantido, proporcionando às famílias um planejamento mínimo para sua autonomia.

Quem dá esmola é motivado por dó, pena, desencargo de consciência ou simplesmente para se livrar da pobreza diante dos olhos, o bolsa família é política pública que garante o direito constitucional de alimentação, dentre outros.

Quem dá esmola estimula a comodidade, o bolsa família estimula a profissionalização por meio de cursos e a cidadania por meio de trabalhos socioeducativos.

Quem dá esmola é quem tem recursos fruto das oportunidades que teve na vida, (o que é extremamente louvável) o bolsa família redistribui a renda por meio de impostos de quem tem muito, embora o país deva fazer uma reforma tributária para aumentar os impostos de quem tem muito e desonerar a classe média.

Quem dá esmola estabelece uma relação de subordinação com quem recebe, o bolsa família estabelece uma relação de cidadania, pois é uma política de estado e não personalizada.

Quem dá esmola não quer ver a pessoa se superar e estimula a desigualdade social, o bolsa família tem como objetivo a superação da condição de pobreza e diminuiu a pobreza em termos absolutos.

Quem dá esmola é pra quem pede, normalmente homens, o titular do bolsa família é preferencialmente a mulher, evitando casos de mal uso do dinheiro.

Quem dá esmola não vai a regiões subdesenvolvidas para estimular o desenvolvimento econômico e estimula a migração para os grandes centros urbanos, provocando mais problemas sociais, o bolsa família favorece essas regiões e permite as pessoas manterem suas raízes e o desenvolvimento local.

Será mesmo o bolsa família uma esmola?

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A veja virou tribunal

Eu sempre soube que a opção política e a visão ideológica influenciavam o pensamento das pessoas. No entanto, não tinha dimensão do quanto esses elementos podem determinar as condições cognitivas das pessoas, fazendo-as fechar os olhos (ou não mostrar os dentes afiados) para elementos narrativos evidentes.

Após e apreciar a leitura do texto Dois pesos, da jornalista Maria Rita Khel, do jornal Estadão. Resolvi enviar para alguns colegas professores. No outro dia, ao encontrar um desses professores eleitor do Serra e leitor assíduo da revista Veja, tive a confirmação que a opção política e a visão ideológica prejudicam a cognição.

Estávamos sentados lado a lado e coincidentemente a Veja cuja edição tem na capa uma estrela vermelha rasgando o Capítulo 5 da Constituição Federal e logo abaixo a manchete: “A liberdade sob ataque. A revelação de evidências irrefutáveis de corrupção no Palácio do Planalto renova no presidente Lula e no seu partido o ódio à imprensa livre”. Animado pela interpretação e elucidação do artigo de Maria Rita comentei que a mesma esteve prestes a ser demitida do jornal devido ao artigo. Com um ânimo sarcástico meu caro colega logo respondeu: “Foi falar mal do Lula”.

O quê? Falar mal do Lula, pelo que me consta, o artigo faz uma reflexão adequada sobre análises injustas sobre o governo Lula. Não diria que fala categoricamente bem, mas pondera dois pesos e duas medidas. No entanto, quero chamar a atenção para o poder ideológico da revista Veja. Uma manchete extremamente refutável politicamente e, principalmente, sob o ponto de vista das liberdades democráticas, afinal, ela já condena por “evidências irrefutáveis” a corrupção. Não quero aqui afirmar que não possa existir, mas que deixe a justiça julgar e não o editorial da revista. Quem deu o direito da revista de condenar os cidadãos? Onde está o direito de defesa? Onde está o princípio constitucional que todos são inocentes até que se prove o contrário em trânsito e julgado? Ou esses princípios não servem para a classe pobre que já nasce condenada pelos infortúnios de seus destinos.

Com base nesta deturpação clara do pacto social da divisão dos três poderes, a revista deixa claro que busca sua afirmação como quarto poder, mas de maneira extremamente leviana. Pautada em uma tese que não lhe cabe julgamento, fez com que meu caro colega, interpretasse o artigo com outra medida, a medida de que o Lula renovou o seu ódio à imprensa livre e que, à semelhança do Serra, pede a cabeça dos jornalistas que vão contra suas manipulações.

Vamos parar de construirmos nossas opiniões com base na revista Veja, por favor.